Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 15 de abril de 2026

 

TESTAMENTO



À prostituta mais nova


Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro...



E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura,

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,

Todo tecido de renda...



Este meu rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...


E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes,

Que nunca souberam ler.


Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada...



Esses, que são de esperança,

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor...


Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...


Com passos feitos de lua,

Oferecê-los às crianças

Que encontrares em cada rua...


Alda Lara

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.