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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Retrato de uma Princesa Desconhecida




Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos


Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Perguntas de um Operário Letrado



Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas
                                               Bertolt Brecht











quarta-feira, 10 de maio de 2017

Memorial do Convento


Algumas Personagens





O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão representa as novas ideias que causavam estranheza na inculta sociedade portuguesa. 
Estrangeirado, Bartolomeu de Gusmão tornou-se um alvo apetecido do chacota da corte e da Inquisição, apesar da protecção real.
Homem curioso e grande orador sacro (a sua fama aproxima-o do padre António Vieira).

Evidenciou, ao longo da obra, uma profunda crise de fé, a que as leituras diversificadas e a postura "antidogmática" não serão alheios, numa busca incessante do saber.

Era conhecido por "Voador" - torna-o elemento catalisador do voo do passarola, conjuntamente com Baltasar e Blimunda. 
A tríade corporiza o sonho e o empenho tornados realidade, a par da desgraça, também ela, partilhada (loucura e morte, em Toledo, de Bartolomeu de Gusmão, morte de Baltasar Sete-Sóis no auto-de-fé e solidão de Blimunda).




Domenico Scarlatti

- Italiano, nascido em Nápoles há 35 anos é uma figura completa, rosto comprido, boca larga e firme, olhos afastados.

-Representa a arte que, 
aliada ao sonho, 
permite a cura de Blimunda e possibilita a conclusão e o voo da passarola.


O Clero
A crítica subjacente a todo o discurso narrativo enfatiza a hipocrisia e a violência dos representantes do espiritualismo convencional, da religiosidade vazia, baseada em rituais que, em vez de elevarem o espírito, originam desregramento, corrupção e degradação moral.

 o papel do clero na Inquisição é uma marca negativa.

O Povo
O verdadeiro protagonista de Memorial do Convento. Espoliado, rude, violento, o povo atravessa toda a narrativa, numa construção de figuras que, embora corporizadas por Baltasar e Blimunda, tipificam a massa coletiva e anónima que construiu, de facto, o convento.



ESPAÇO FÍSICO

São dois os espaços físicos nos quais se desenrola a acção: Lisboa e Mafra.

Lisboa, enquanto macro - espaço, integra outros espaços:

TERREIRO DO PAÇO;

ROSSIO;

SÃO SEBASTIÃO DA PEDREIRA.


Mafra- Alto da Vela ( local escolhido para a construção do convento)

Ilha da Madeira- Onde começaram por se alojar mil trabalhadores, chegando depois a quatro mil.


                                                                ESPAÇO SOCIAL

O espaço social é construído, na obra, através do relato de determinados momentos (ou episódios) e do percurso de personagens que tipificam um determinado grupo social, caracterizando-o.

Ao nível da construção do espaço social, destacam-se os seguintes momentos: 

PROCISSÃO DA QUARESMA;
AUTOS-DE-FÉ;
A TOURADA;
PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS;
O TRABALHO NO CONVENTO.


Procissão da Quaresma


 Excessos praticados durante o Entrudo (satisfação dos prazeres carnais) e brincadeiras carnavalescas - as pessoas comiam e bebiam demasiado, davam "umbigadas pelas esquinas", atiravam água à cara umas das outras, batiam nas mais desprevenidas, tocavam gaitas, espojavam-se nas ruas.


 Penitência física e mortificação da alma após os desregramentos durante o Entrudo (é tempo de "mortificar a alma para que o corpo finja arrepender-se”)



Procissão do Corpo de Deus

A procissão do Corpo de Deus, em conjunto com a procissão da quaresma, caracteriza a sociedade em geral.
 
Nos dias que antecedem a procissão do corpo de Deus, as damas vem às janelas mostrar os seus penteados às vizinhas, há pessoas a dançar e a tocar na rua, e também se improvisam touradas.
O povo ao ver todos os preparativos para a procissão do corpo de Deus fica fascinado com a riqueza que esta ostenta.
A cerimónia começa ainda de madrugada com as pessoas a dirigirem-se para ocupar as alas da procissão.
A procissão é enorme!
(24 bandeiras dos ofícios, a imagem de são Jorge, o estandarte do santíssimo sacramento, as comunidades conventuais, o rei e o povo segue a procissão, no final de tudo.)

Ambas as procissões realçam a forma como a população se manifesta-se histericamente e utiliza as festas religiosas para satisfações carnais.
Em particular, durante a procissão da quaresma a população revela o seu gosto por sangue (quando as pessoas se exaltam devido ao som do chicote e a visão do sangue que escorre). Por outro lado, a procissão do corpo de deus mostra uma igreja e um rei fútil, pois o facto da procissão estar cheia de adornos luxuosos não contribui propriamente para a glorificação divina, mas sim, mas a demonstração do monarca e da igreja.


Autos-de-fé (Rossio) 

 O Rossio está novamente cheio de assistência; a população está duplamente em festa, porque é domingo e porque vai assistir a um auto-de­-fé (passaram dois anos após o último evento deste tipo).

 O narrador revela a sua dificuldade em perceber se o povo gosta mais de autos-de-fé ou de touradas, evidenciando com esta afirmação a sua ironia crítica perante um povo que revela um gosto sanguinário e procura nas emoções fortes uma forma de preencher o vazio da sua existência.



Tourada (Terreiro do Paço)


 O espectáculo começa e o narrador enfatiza a forma como os touros são torturados, exibindo o sangue, as feridas, as "tripas“ ao público que, em exaltação, se liberta de inibições ("os homens em delírio apalpam as mulheres delirantes, e elas esfregam-se por eles sem disfarce” .


ESPAÇO PSICOLÓGICO

O espaço psicológico é constituído pelo conjunto de elementos que traduz a interioridade das personagens. 


O sonho – a rainha sonha diversas vezes com o cunhado, D. Francisco. Ao longo do romance, são descritos com alguma insistência os sonhos de diversas personagens, dando conta dos seus mais íntimos desejos, ansiedades e inquietações…
A imaginação – por exemplo, a peregrinação em busca de Baltasar, durante nove anos, Quantas vezes imaginou Blimunda que estando sentada na praça de uma vila, a pedir esmola, um homem se aproximaria… (Cap. XXV)
A memória – Quando Baltasar, por exemplo, relembra o momento em que perdeu a sua mão esquerda na guerra. (VIII)
A reflexão – nomeadamente, a conversa entre a infanta D. Maria Bárbara e sua mãe durante o cortejo nupcial .(XXII)




O TEMPO DIEGÉTICO  (da História)


Trata-se do tempo em que decorre a acção.

O fluir do tempo, mais do que através da recorrência a marcos cronológicos específicos, é sugerido pelas transformações sofridas pelas personagens e por alguns espaços e objectos ao longo da obra.



As referências cronológicas mais importantes são as seguintes:

A acção inicia-se em 1711. D. João V ainda não fizera vinte e dois anos e D. Maria Ana Josefa chegara há mais de dois anos da Áustria.


em 1716, tem lugar a bênção da primeira pedra do Convento de Mafra;

em 1717, Baltasar e Blimunda regressam a Lisboa para trabalhar na passarola do padre Bartolomeu de Gusmão;

em 1719, celebra-se o casamento de D. José com Mariana Vitória e de Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando (VI de Espanha);

em 1730, mais propriamente no dia 22 de Outubro, o dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei, realiza-se a sagração do Convento de Mafra;

a acção termina em 1739, no momento em que Blimunda vê Baltasar a ser queimado em Lisboa, num auto-de-fé.



TEMPO DO DISCURSO
A antecipação de alguns acontecimentos serve os seguintes propósitos :

a crítica social - é o caso das prolepses que dão a conhecer as mortes do sobrinho de Baltasar e do infante D. Pedro, de modo a estabelecer o contraste entre os dois funerais, ou a morte de Álvaro Diogo, que viria a cair de uma parede, durante a construção do convento, assim como a informação sobre os bastardos que o rei iria gerar, filhos das freiras que seduzia;

 a visão globalizante de tempos distintos por parte do narrador (o tempo da história e, num tempo futuro, o do momento da escrita) - cabem aqui as referências aos cravos (outrora, nas pontas das varas dos capelães; muito mais tarde, símbolos da revolução do 25 de Abril), a associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de os homens terem ido à Lua, no século XX, a alusão ao tipo de diversões que se vivia no século XVII e ao cinema, entre outras.


LINGUAGEM


        O autor utiliza, em maior ou menor grau, o registo de língua familiar e popular com sentido irónico e crítico ou como forma de traduzir o estatuto social das personagens.
Popular: "de boca à banda" 
Familiar: "Meu querido filho, como foi isso, quem te fez isto..." 
Cuidado: "não havendo portanto mediano termo entre a papada pletórica e o pescoço engelhado, entre o nariz rubicundo e o outro heréctico“

As principais figuras de estilo:
- metáfora
-ironia
-hipálage
-aforismo
-oposições (antonímia)

Formas verbais
- o gerúndio ( para traduzir movimento, duração,…)
- O modo imperativo( como reminiscência da oratória barroca, liga-se à ironia)
 o presente do indicativo( transporta o leitor para o tempo da narrativa)


INTERAÇÃO COM A LÍNGUA PORTUGUESA

Quadras populares: "Aqui me traz minha pena com bastante sobressalto, porque quer voar mais alto, a mais queda se condena".
Contos tradicionais: "Era uma vez uma rainha que vivia com o seu real marido em palácio...".
Luís de Camões, Os Lusíadas: "O homem, bicho da terra" .
Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes: "Estão parados diante do último pano da história de Tobias, aquele onde o amargo fel do peixe restitui a vista ao cego. A amargura é o olhar dos videntes, senhor Domenico Scarlatti,...".
Fernando Pessoa, Mensagem: "Em seu trono entre o brilho das estrelas, com seu manto de noite. solidão, tem aos seus pés o mar novo e as mortas eras, o único imperador que tem, deveras, o globo mundo em sua mão, este tal foi o infante D. Henrique, consoante o louvará o poeta por ora ainda não nascido... “.
Estilo barroco: "Parece apenas um gracioso jogo de palavras, um brincar com os sentidos que elas têm, como nesta época se usa, sem que extrema mente importe o entendimento ou propositadamente o escurecendo."



Simbolismo

A História, em Memorial do Convento, torna-se matéria simbólica para refletir sobre o presente , na perspetiva da denúncia para dela se extrair uma moralidade que sirva de lição para o futuro


O que representam, na obra, Baltasar e Blimunda?
     Representam a capacidade humana de lutar contra a repressão; a capacidade de libertação de todo um povo oprimido.
     Sete-Sóis e Sete-Luas simbolizam, juntos, uma totalidade e isto por dois motivos:
– porque são Sol e Lua, astros que complementam a unidade do tempo, feito de dia (Sol) e de noite (Lua);
– mas também porque o número sete representa, na simbologia hebraica, a totalidade humana, simultaneamente masculina e feminina.
- criam a passarola da liberdade tal como Ícaro.


Bartolomeu de Gusmão
Representa o ser fragmentário, dividido entre a religião e a alquimia.
Simboliza a aspiração humana
( voo da passarola)  

Scarlatti
Ligado à música simboliza a ascensão de um homem através da música.



Sete – representa a totalidade do universo 
Está presente no nome do par amoroso para representar a harmonia cósmica. 

Nove – representa a gestação, a renovação e o renascimento.

Passarola – é o elo de ligação entre o céu e a Terra, na ânsia da realização e da libertação.

A mãe da pedra - Uma outra situação-acontecimento de cariz mítico constitui-se como a gesta heróica do transporte da pedra gigante de mármore. Anuncia os "trabalhos" fabulosos.



TEMAS

A opulência dos ricos / a extrema pobreza do povo 
«Esta cidade, mais que todas, é uma boca que mastiga de sobejo para um lado e de escasso para o outro.»

 A religião repressiva e degradação dos costumes
«entre duas igrejas, foi encontrar-se com um homem.»
«alivia-se a necessidade, na peniqueira ou no ventre das madres»

A plenitude do amor / o casamento de conveniência

Elogio do Sonho/Utopia
A história do sonho de voar, personificado na figura do padre--cientista Bartolomeu Lourenço de Gusmão (poder do sonho e da vontade) 

Ânsia de liberdade/ repressão da Inquisição