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terça-feira, 9 de março de 2021

Poemas 2ª Parte da obra Mensagem

 HORIZONTE

II


Ó mar anterior a nós, teus medos

Tinham coral e praias e arvoredos.

Desvendadas a noite e a cerração,

As tormentas passadas e o mistério,

Abria em flor o Longe, e o Sul sidério

Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —

Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta

Em árvores onde o Longe nada tinha;

Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:

E, no desembarcar, há aves, flores,

Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis

Da distância imprecisa, e, com sensíveis

Movimentos da esperança e da vontade,

Buscar na linha fria do horizonte

A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —

Os beijos merecidos da Verdade.

s.d.

III

        PADRÃO

O esforço é grande e o homem é pequeno.

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno

E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão sinala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano

Ensinam estas Quinas, que aqui vês,

Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma

E faz a febre em mim de navegar

Só encontrará de Deus na eterna calma

O porto sempre por achar.

13-9-1918


 IV

        O MOSTRENGO

mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

9-9-1918

    XII

        PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,

Se ainda há vida ainda não é finda.

O frio morto em cinzas a ocultou:

A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,

Com que a chama do esforço se remoça,

E outra vez conquistemos a Distância —

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

s.d.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Temática da Nostalgia da Infância

 Em  Pessoa ortónimo, a infância é entendida como um tempo mítico do bem, da felicidade e da inconsciência. Nela permanecem sempre vivos a família e os lugares, a segurança e o aconchego. A inconsciência de que todo esse bem é irrecuperável, alimenta a nostalgia pela infância, um tempo perdido que serve sobretudo para acentuar a negatividade do presente. Ao mesmo tempo que gostava de ter a infância das crianças que brincam, sente a saudade de uma ternura que lhe passou ao lado. A temática do regresso à infância associa-se igualmente ao tempo e à degradação. Em consequência da brevidade da vida e da passagem dos dias, Pessoa busca múltiplas emoções e abraça sonhos impossíveis, mas acaba “sem alegria nem aspirações”, inquieto, só e ansioso;

 O passado pesa “como a realidade de nada” e o futuro “como a possibilidade de tudo”. O tempo é para Pessoa um factor de desagregação na medida em que tudo é breve e efémero; Procura superar a angústia existencial através da evocação da infância e de saudade desse tempo feliz. A infância representa-se como refúgio para combater a insatisfação com o presente e incapacidade de viver o presente em plenitude.

A nostalgia de um estado inocente em que o eu ainda não se tinha desdobrado em eu reflexivo está representada no símbolo da infância. A infância é a inconsciência, o sonho, a felicidade longínqua, uma idade perdida e remota que possivelmente nunca existiu a não ser como reminiscência. 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Arte de Santa-Rita Pintor

Santa-Rita Pintor ( clica no nome para aprenderes mais sobre este pintor português)


Cabeça














Cabeça, c. 1910, é uma pintura da autoria do pintor português Guilherme de Santa-Rita (ou Santa-Rita Pintor). É consensualmente considerada uma obra central do modernismo em Portugal.

 Esta obra aproxima-se das máscaras africanas evocadas por Picasso nas Demoiselles d’Avignon, e de outras obras do mesmo autor.

Obra mítica da raríssima produção conhecida de Santa-Rita, nela o pintor exercitou uma unidade plástica que pode conotar-se com os princípios técnicos e estéticos do cubismo analítico, dinamizados por movimentos circulares que encontramos em obras do futurismo italiano.

A pintura pertence à Colecção do Secretaria de Estado da Cultura / Ministério da Cultura de Portugal e encontra-se em depósito no Museu do Chiado, Lisboa.







Arte de Amadeo de Souza Cardoso

 

A casa onde nasceu o pintor mantém-se na sua família conservada quase como nos tempos em que o artista aqui viveu e pintou. De Amarante a Manhufe.








A Cozinha


 A cozinha da casa de Manhufe, aquela que Souza-Cardoso pintou e que se mantém quase igual ao que era em 1913. "É uma cozinha suspensa no tempo".

"Há várias cartas escritas à mulher, Lucie, nesta cozinha",

O quadro pode ser visto no Museu Gulbenkian - Coleção Moderna, Estamos em Manhufe, aldeia da freguesia de Mancelos, em Amarante, entre o Porto e Vila Real.








Outros quadros


Procissão







O Futurismo

 A Vitória de Samotrácia, também conhecida como Nice de Samotrácia, é uma escultura que representa a deusa grega Nice cujos pedaços foram descobertos em 1863 nas ruínas do Santuário dos grandes deuses de Samotrácia.

 Em grego, o seu nome é Níkē tes Samothrakes (Νίκη της Σαμοθράκη). Fazia parte de uma fonte, com a forma de proa de embarcação, em pedra calcária, doada ao santuário provavelmente pela cidade de Rodes. Ocupa lugar de destaque numa escadaria do Museu do Louvre, em Paris.

Produzida por algum escultor desconhecido, provavelmente rodiano, acredita-se que a estátua foi confeccionada entre 220 e 190 a.C.
























domingo, 8 de dezembro de 2019

Poema com versos de Pessoa


Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre.
Pedras no meu caminho? Guardo-as todas. Um dia construirei um castelo.
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho.
Eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura.
A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias.
Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o quiser. Mas tenho que querer o que for.
Para viajar basta existir.
Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Conserva a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela.
Basta existir para se ser completo.
Amar é cansar-se de estar só...
O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.
Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá.
Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é.
Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo.
O que penso eu do mundo?
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir passar o vento, VALE A PENA TER NASCIDO.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
 Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Minha vida é feita de tristezas, felicidades e ao mesmo tempo amor.
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
O importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível, e que esse momento será inesquecível.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.
Para ser grande, sê inteiro.