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domingo, 27 de outubro de 2013

Quadro síntese sobre o Cancioneiro de Fernando Pessoa 
Motivos poéticos / temas
Estilo
Nível fónico
Nível morfossintático
 e semântico
-    nostalgia do Eu, de um bem perdido (tema da perda);

-    ceticismo;
-    sentimento de saudade;
-    nacionalismo;
-    tédio;
-    náusea;
-    resignação dorida de quem sofre a vida sendo incapaz de a viver;
-    abdicação, desistência;
-    sentimento do vácuo e da opacidade do real;
-    solidão interior;
-    angústia;
-    abulia, fraqueza da vontade;
-    estranheza, perplexidade;
-    dificuldade em distinguir o sonho da realidade;
-    lucidez e dor de ser lúcido, de pensar;
-    intelectualização de emoções;
-    esoterismo;
-    momentos inefáveis: reminiscências do mundo fantástico da infância; a música; o sonho.
Grande sentido da musicalidade:

-    versificação regular e tradicional;
-    eufonia dos versos: rimas, ritmo, aliterações, onomatopeias;
-    transporte ou encadeamento de versos.
-    adjectivação expressiva;
-    utilização expressiva de modos e tempos verbais;
-    uso frequente do presente do indicativo;
-    paralelismos e repetições;
-    comparações;
-    metáforas;
-    uso de símbolos;
-    vocabulário simples (linguagem simples e espontânea);
-    associações inesperadas (por vezes com desvios sintáticos);
-    pontuação emotiva (frases exclamativas, interrogativas e suspensivas);
-    uso frequente de frases nominais;
-    oxímoros (paradoxos).
Adaptado de Para Compreender Fernando Pessoa, Amélia Pinto Pais
Porto, Areal Editores, 2001.


A Poesia do Cancioneiro

A Poesia do Cancioneiro



Em Fernando Pessoa coexistem duas vertentes: a tradicional e a modernista.

 Algumas das suas composições seguem a continuidade do lirismo português (melancolia, sensibilidade, suavidade e linguagem simples), com marcas do saudosismo; outras iniciam o processo de rutura, que se concretiza nos heterónimos ou nas experiências modernistas (colaboração com a revista Orpheu) que vão desde o simbolismo ao paulismo e intersecionismo, no Pessoa ortónimo.

 Vertente modernista:

  irregularidade métrica (heterometria);

  irregularidade estrófica (heterostrofia);

  a criação heteronímica.



As poesias de Fernando Pessoa reunidas sob o título de Cancioneiro, além de prestar uma homenagem a tradição lírica lusitana de preservar os seus mais antigos textos literários, também se relacionam com as cantigas medievais, pois o ritmo e a métrica dos versos deixam esses poemas tão harmoniosos que eles se transformam também em "verdadeiras letras de música"

 Vertente tradicionalista:

  preferência pela métrica curta;

  lirismo lusitano (reminiscências de cantigas de embalar, toadas do romanceiro, contos de fadas);

 • gosto pelo popular (uso frequente da quadra);

  versos leves em que recorre frequentemente à interrogação e às reticências.



         Uma poesia musical que vive da música das emoções: ritmo, música das ideias, melodia, música das palavras. 
·         ·         Um poeta da nostalgia do Eu, do sentido de perda, do tédio, da náusea, do cansaço, da estranheza e também:
            -   da inquietação perante o enigma do mundo, indecifrável porque opaco;
            -   da solidão interior;
            -   das contradições pensar/sentir; querer/fazer; esperança/desencanto. 
·             ·         Com momentos (breves) de plenitude na infância, na música e no sonho. 

Um poeta subjetivo, centrado sobre o Eu (egotismo); sofrendo a dor de pensar, a distância entre o sonho e a realidade, a incapacidade de fruir – vivendo sobretudo pela inteligência e pela imaginação.





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO

Um texto expositivo-argumentativo tem como objectivo apresentar, sobre um determinado assunto, um juízo próprio de uma forma clara, organizada e fundamentada. A estrutura deste tipo de texto é tripartida, assentado no esquema introdução, desenvolvimento, conclusão.

§         Na introdução deve ser sumariamente apresentada a tese a defender e introduzir, de forma muito superficial os pontos a desenvolver. Deve ser constituída por um único parágrafo, sem exemplos.
§         desenvolvimento assenta da apresentação de argumentos e contra-argumentos que validem a tese inicial. Deve articular-se com a introdução, desenvolvendo os pontos introduzidos. Deve apresentar referências concretas e específicas ao assunto que está a ser abordado. No caso de se fundamentar em juízos de leitura, devem ser seleccionadas referências pertinentes e/ou citações adequadas. Deve estruturar-se em estratégias linguísticas apropriadas para a defesa de um ponto de vista.
§         conclusão apresenta a síntese dos argumentos e a validação da tese inicial. A conclusão deve articular-se com a introdução, na medida em que é o reforço, agora validado, da tese inicial.


 

terça-feira, 1 de outubro de 2013


Paulismo

O Paulismo, com raízes no Simbolismo e no Decadentismo, caracteriza-se por traços como: o desejo de transmitir impressões vagas e difusas, o recurso frequente à sinestesia, aos pontos de suspensão, à construção tendencialmente nominal da frase ou sintaticamente insólita, à maiusculação de termos, à profusão metafórica, uma tendência para a evocação de paisagens esfumadas e crepusculares, para o esteticismo, para a expressão do tédio, da melancolia e do absurdo.

 

             IMPRESSÕES DO CREPÚSCULO     29-03-1913

Pauis de roçarem ânsias pela minh' alma em ouro...

Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro

Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...

Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!

Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado

Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!

Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!

Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo

Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...

Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade

A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade

O meu abandonar-se a mim próprio até desfalecer,

E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...

Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se.

O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...

A sentinela é hirta - a lança que finca no chão

É mais alta do que ela... Para que é tudo isto.... Dia chão...

Trepadeiras de despropósitos lambendo de Hora os Aléns...

Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de ferro...

Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...

Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!




 

Ideia vaga da ansiedade, tristeza, provocada por uma paragem ou estagnação. O vocabulário e as imagens que sugerem a paragem e a estagnação. A ânsia pelo que se não tem; o distante, o indefinível, o inatingível- o Mistério. Consciência da ilusão da busca do Mistério.

 
 

Do paulismo derivou ainda outra corrente, o interseccionismo, cuja melhor expressão foi a Chuva Oblíqua, corrente que resulta de uma adaptação do paulismo a novas estéticas como o futurismo e o cubismo. Com esta corrente o poeta pretende exprimir a complexidade e a intersecção das sensações percepcionadas, aproximando-se, então, do cubismo que exprime a interpenetração e sobreposição dos planos dos objectos.

 

 

Chuva Oblíqua  8-3-1914

 

I

 

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito

E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios

Que largam do cais arrastando nas águas por sombra

Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido

E esta paisagem é cheia de sol deste lado...

Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio

E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...

O vulto do cais é a estrada nítida e calma

Que se levanta e se ergue como um muro,

E os navios passam por dentro dos troncos das árvores

Com uma horizontalidade vertical,

E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...

Súbito toda a água do mar do porto é transparente

e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,

Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,

E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa

Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E passa para o outro lado da minha alma... (…)

 



 

Uma chuva que é oblíqua, é uma chuva inclinada e que incomoda por não ter como fugir dela; ela atinge as pessoas por mais que tentem esquivar-se. Nesta chuva há uma intersecção, um cruzamento de elementos bons e maus, desejáveis e indesejáveis, do real com o imaginário; elementos estes, que aos poucos vão transpassando pela cabeça e pelo imaginário daqueles que são atingidos por tal chuva.

 

 

 

 

Mais tarde surgia o sensacionismo, corrente que faz a apologia da sensação como a única realidade da vida corrente que Fernando Pessoa considera cosmopolita e universalista e que corresponde a uma arte sem regras.

 

 

Numa carta a um editor inglês, Fernando Pessoa define da seguinte forma a atitude central do sensacionismo:

 

1- A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.

 

2- Não há filosofia, ética ou estética, mesmo na arte, seja qual for a parcela que delas haja na vida. Na arte existem apenas sensações e a consciência que dela temos.[...]

 

3- A arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objecto que seja uma sensação para os outros. [...]

 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Morte de Álvaro de Campos


Super-centenário era já, no entanto ao contrário dos outros que o consideravam um caso de notável longevidade e, até, um abençoado. O próprio homem considerava-se antes alguém esquecido pela própria Morte. Apesar da desilusão com a civilização mecânica, Campos manteve-se fiel à civilização digital pois, pela primeira vez, o Homem finalmente estava próximo de ele próprio se tornar uma máquina. E, talvez, sendo as máquinas perfeitas, o Homem se tornasse ele próprio perfeito.
No entanto mesmo os melhores computadores, feitos à imagem do Homem eram também eles de certa forma imprevisíveis e imperfeitos. E apesar de a rede global ter tornado as viagens substancialmente mais baratas, a solidão e nostalgia permaneciam, o tempo já passado ia acumulando e a infância já estava de tal modo distante que parecia antes ter sido vivida por uma outra pessoa, sendo o actual Álvaro um outro indivíduo que possui, por alguma arte, memórias de outra pessoa.
Mas quem será este “novo” Álvaro? De certo, alguém frustrado de estar frustrado… De estar frustrado, os anos são tantos que já perdeu memória de quem é realmente, ou talvez nunca o soube.
A filosofia que aprendera com o seu antigo mestre já pouco se aplicava neste novo Mundo. Uma foto ou um filme que antes eram expressões das sensações puras, a captação pura do real eram agora facilmente manipuláveis.
Tal como um qualquer velho, Campos tinha adoptado uma rotina que mantinha religiosamente.
Efectuava um percurso pela cidade de Lisboa, sempre a pé, todos os dias. O propósito desta caminhada era mais para o próprio confirmar que ainda estava vivo e que as suas pernas super-centenárias ainda funcionavam do que pelo exercício físico. No entanto, com o passar dos anos, este percurso foi alterando com a mudança da morfologia da própria Lisboa. Quando a idade é tão avançada torna-se claro que a cidade é também um ser vivo em constante mudança. Essa mudança tornou-se tão acentuada que a rota diária tinha de ser alterada de tempos a tempos. As estradas deixaram de estar povoadas de animais de transporte e passaram a estar ocupadas de animais que dificultam o transporte.
E enquanto as barulhentas máquinas deusas da locomoção terrestre se poderiam afigurar ao sonho de Campos, a sujidade destas e as bestas que as conduziam transformavam-nas em algo detestável.
À falta de pragas devastadoras e guerras perto de casa, a Morte parecia também difícil de encontrar casualmente e suicídio consciente parecia fora de questão, as memórias da infância mantinham-no são. Mas esta ignóbil vida estava deveras a chegar ao fim.
Era fim de tarde já em Lisboa quando Álvaro decidiu sair das ruas, farto de tão asnática população. É inacreditável que apesar de tantas décadas a cultura Chico-espertista portuguesa continua em demasiada boa forma. Não se sabe se foi esta cultura que pôs o povo português no topo da cadeia alimentar no tempo dos Descobrimentos, mas é certo que tentar ultrapassar em filas usando um vastíssimo arsenal de manobras puníveis por lei/ perigosas é, basicamente, cultural. Cultural é também a veneração aos programas em horário nobre. Apesar da ascensão da inexorável Internet, aqueles das classes mais baixas não dispensam ainda a caixa da cultura da treta. É interessante observar, e Campos como ancião que é o verifica ainda com mais clareza, como a televisão passou de besta a bestial. O que inicialmente era o equivalente socialmente aceitável a fumar marijuana, devido aos efeitos nefastos que provocaria no cérebro tornou-se na maior fonte de cultura da população. Campos não dispensava ver toda a variedade de programas existentes. Um dos elementos mais caracterizadores de um povo são os programas que veem. E o amor do português ao espectáculo e ao exagerado está bem presente. O português é o tipo de indivíduo que consegue fazer de um incêndio florestal espectáculo cultural. Os programas mais vistos refletiam toda esta veneração ao sensacionalismo, que apesar da semelhante fonética, é bastante diferente do sensacionismo que Campos tanto gostava nos seus poemas. No entanto, apesar de tudo deve-se dar crédito ao povo português por… o pensamento do velho heterónimo interrompeu-se por aqui quando uma parte do jantar se decidiu vingar. Tratava-se de uma espinha do bacalhau cozido preso na garganta de Campos. Parecia que o próprio peixe já não se sentia digno de ser engolido por alguém de nacionalidade tão reles.
Quando recuperou os sentidos, apenas ouvia o beep pausado da máquina de suporte de vida. Por algum tipo de consequência que só alguém entendido em saúde saberia explicar, a vingativa espinha tinha conseguido pôr o velho poeta em estado crítico. E foi, nesta deprimente condição, que Campos percebeu que finalmente teria atingido o seu sonho: ser um com uma máquina. Infelizmente para ele, este, outrora grande sonho era agora um pesadelo: as máquinas apesar de parecerem grandiosas, são na verdade frágeis, dependentes do Homem e monótonas nas suas acções. As máquinas afiguravam-se mais a cães do que a deuses, e mesmo o melhor amigo do Homem consegue, por vezes, surpreender e adoptar comportamentos inesperados, a máquina nunca foge ao que o seu programador idealizou.
Esta última desilusão acabou com o último sonho de Campos. Porque os sonhos, para se chamarem sonhos, têm um carácter de certa intangibilidade que os tornam algo brilhante, fantástico, maravilhoso e o último objetivo na vida. No entanto quando, por obra da vontade humana, este objetivo perde a sua intangibilidade depressa estes sonhos se mostram como algo bastante terreno e até aborrecido. É nesta fase que se instala a desilusão da qual Álvaro de Campos sofria.
Por, também, consequências médicas, cuja natureza é de difícil explicação, aliás a explicação é até bastante simples mas algo embaraçosa e que deixou os médicos responsáveis prontos a enterrarem-se até ao outro lado do Planeta, pode-se dizer que a partir deste acontecimento o maior uso das licenças médicas de todos os responsáveis seria combustível, se o embaraço e a vergonha fossem comestíveis estava resolvida a crise de falta de alimento em África. Acontece que o pobre desiludido homem sofreu danos cerebrais, todas as memórias de longo prazo, leia-se as mais antigas, tinham sido apagadas. Sem o reconforto das memórias de infância, a última solução seria o suicídio. Ato este que tantos anos de evolução de política social teriam tornado dignificado sob a forma de eutanásia. Enfim, algo de útil que a modernidade trouxe, para além do controlo remoto e do bacalhau embalado em vácuo.
No dia seguinte todos os media noticiavam o mesmo: “morreu um dos maiores poetas de sempre e o Homem mais velho de Portugal”, em seguida mostravam slideshows com antigas fotos de Álvaro enquanto uma voz off lia o seu artigo da Wikipedia. Imediatamente, adivinhando que esta morte estava para breve um escritor de pouca imaginação finalmente publicava uma biografia completa do falecido, enquanto outro publicava um “Álvaro de Campos como nunca antes visto” repleto de escândalos sexuais e outras coisas que agradariam ao público. A velha casa no centro de Lisboa onde vivia foi imediatamente comprada e transformada em museu. Tudo valia para monetizar a custo do defunto, era, afinal, tudo em prol da preservação da Cultura. No entanto, para a perspetiva do povo algo foi bom: finalmente toda a populaça que via televisão depois do trabalho e cuja cultura se resumia a jornais desportivos e o que é que estivesse para ler na sala de espera do dentista sabia quem era Álvaro de Campos.
Era enfim, uma completa celebridade.


André Lopes