Fernando Pessoa por Teresa Rita Lopes
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sábado, 20 de fevereiro de 2016
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Diversas simbologias associadas ao nº 3:
• Representação da totalidade através da união DEUS/UNIVERSO/HOMEM;
• Ligação à figura de Cristo e à espiritualidade (PAI/FILHO/ESPÍRITO SANTO);
• Fases da existência NASCIMENTO/CRESCIMENTO/MORTE, que aliás estão cada uma respetivamente associada à simbologia das três partes da Mensagem BRASÃO/MAR PORTUGUÊS/ENCOBERTO (estrutura tripartida).
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
MENSAGEM-ESTRUTURA
O primeiro e único livro em português que Fernando Pessoa publicou em vida foi MENSAGEM (1934), um “livro de versos nacionalistas”, composto ao longo de cerca de duas décadas, que o poeta estruturou em três partes, correspondentes a etapas da evolução do Império Português - nascimento (os construtores do Império), realização (o sonho marítimo e a obra das descobertas) e morte (a imagem do Império moribundo, com a fé da ressurreição do espírito lusíada do império espiritual, moral e civilizacional.).
I) A primeira parte - Brasão - começa pela localização de Portugal na Europa e em relação ao mundo, afirmando o valor simbólico do seu papel na civilização ocidental quando afirma "O rosto com que fita é Portugal!"... Depois define o mito como um nada capaz de gerar os impulsos necessários à construção da realidade (o Sebastianismo é o mito que se manifesta nos momentos de crise nacional).
Passa a apresentar Portugal como um povo heróico e guerreiro, predestinado a construir o império marítimo. Refere mitos e figuras históricas de Portugal (de Viriato até D. Sebastião). Transmite a imagem de um Portugal erguido à custa do esforço abnegado de muitos heróis, que frequentemente não agiram por interesse próprio, mas motivados por forças maiores, quase que predestinados a grandes feitos: o nascimento. Contém, entre outros, os poemas “O dos Castelos”, “Ulisses” (“O mito é o nada que é tudo”), “D. Dinis”, “D. Sebastião, rei de Portugal”.
«Para Pessoa, Portugal é o rosto da Europa, aquele que “fita” o mar ocidental, seu destino, seu futuro (e futura glória e dor).»
II) A segunda parte - Mar Português - inicia-se com o poema Infante, onde o poeta mostra que o sonho tem como causa primeira a vontade de Deus, o Homem como agente intermediário e a obra como efeito. Nos outros poemas refere personalidades e factos dos Descobrimentos portugueses, encarados na perspetiva da missão que competia a Portugal cumprir. Destaca-se a projeção universal que este empreendimento implicou, bem como os esforços sobre-humanos, a grandeza de alma, necessários à luta contra os elementos naturais, hostis e desconhecidos: a realização. Contém, entre outros, os poemas “O Infante”, “O Mostrengo”, “Mar Português”, “Prece”.
III) A terceira parte - Encoberto - evoca um Portugal mais recente, envolto em tristeza, trevas e perda de identidade (a morte) mas crê que nele ainda esteja latente a essência do “ser português”; assim, mostra esperança no “regresso” do rei Encoberto que virá regenerar o País, pois “ é a hora” de : construir o Quinto Império. Contém, entre outros, os poemas “D. Sebastião”, “O Quinto Império”, “António Vieira”, “Nevoeiro”.
I) A primeira parte - Brasão - começa pela localização de Portugal na Europa e em relação ao mundo, afirmando o valor simbólico do seu papel na civilização ocidental quando afirma "O rosto com que fita é Portugal!"... Depois define o mito como um nada capaz de gerar os impulsos necessários à construção da realidade (o Sebastianismo é o mito que se manifesta nos momentos de crise nacional).
Passa a apresentar Portugal como um povo heróico e guerreiro, predestinado a construir o império marítimo. Refere mitos e figuras históricas de Portugal (de Viriato até D. Sebastião). Transmite a imagem de um Portugal erguido à custa do esforço abnegado de muitos heróis, que frequentemente não agiram por interesse próprio, mas motivados por forças maiores, quase que predestinados a grandes feitos: o nascimento. Contém, entre outros, os poemas “O dos Castelos”, “Ulisses” (“O mito é o nada que é tudo”), “D. Dinis”, “D. Sebastião, rei de Portugal”.
«Para Pessoa, Portugal é o rosto da Europa, aquele que “fita” o mar ocidental, seu destino, seu futuro (e futura glória e dor).»
II) A segunda parte - Mar Português - inicia-se com o poema Infante, onde o poeta mostra que o sonho tem como causa primeira a vontade de Deus, o Homem como agente intermediário e a obra como efeito. Nos outros poemas refere personalidades e factos dos Descobrimentos portugueses, encarados na perspetiva da missão que competia a Portugal cumprir. Destaca-se a projeção universal que este empreendimento implicou, bem como os esforços sobre-humanos, a grandeza de alma, necessários à luta contra os elementos naturais, hostis e desconhecidos: a realização. Contém, entre outros, os poemas “O Infante”, “O Mostrengo”, “Mar Português”, “Prece”.
III) A terceira parte - Encoberto - evoca um Portugal mais recente, envolto em tristeza, trevas e perda de identidade (a morte) mas crê que nele ainda esteja latente a essência do “ser português”; assim, mostra esperança no “regresso” do rei Encoberto que virá regenerar o País, pois “ é a hora” de : construir o Quinto Império. Contém, entre outros, os poemas “D. Sebastião”, “O Quinto Império”, “António Vieira”, “Nevoeiro”.
Quadro comparativo entre Os Lusíadas e Mensagem
Semelhanças
· Poemas sobre Portugal.
· Concepção da História Portuguesa enquanto demanda mística.
· D. Sebastião, ser eleito, enviado por Deus ao mundo, para difundir a Fé de Cristo.
· Os heróis concretizam a vontade divina.
· Conceito abstrato de Pátria.
· Apresentação dos heróis da História de forma fragmentária.
· Exaltação épica da acção humana no domínio dos mares.
· Superação dos limites humanos pelos heróis portugueses.
· Superioridade dos navegadores lusos sobre os nautas da Antiguidade.
· Glória marcada pelo sofrimento e lágrimas.
· Sacrifício voluntário em nome de uma causa patriótica.
· Estrutura rigorosamente arquitetada.
· Evocação do passado (memória) para projectar, idealizar o futuro (apelo, incentivo).
Diferenças
Os Lusíadas Mensagem
Dinamismo: a viagem, a aventura, o perigo. Estatismo: o sonho, o indefinido.
A ação, a inteligência, o concreto,
o conhecimento do Império no apogeu e
na decadência, a possibilidade de ter esperança.
O abstrato, a sensibilidade, a utopia, a falta de razões para ter esperança, o sebastianismo
O poeta dirige-se a D. Sebastião, que era uma
realidade viva, e invectiva o rei a realizar novos
feitos que dêem matéria a uma nova epopeia.
D. Sebastião é uma entidade que vive na memória saudosa do poeta, uma sombra, um mito.
A memória e a esperança situam-se no mesmo plano.
A esperança é utopia, só existe no sonho.
Conceção de heroísmo: concretização de
feitos épicos pelos humanos.
Conceção de heroísmo: de carácter mental, conceptual.
Os heróis são símbolos de um olhar visionário, as figuras são espectros, resultado do trabalho do pensamento.
Amor à Pátria: enaltecimento e imortalização
da História de Portugal e dos heróis portugueses,
através de um poema épico, trabalho árduo e longo.
Amor à Pátria: atitude metafísica, procura incessante do que não existe. Expressão de fé no Quinto Império.
Linguagem épica, estilo grandiloquente.
Linguagem épico-lírica, estilo lapidar.
Epopeia clássica pela forma e pelo conteúdo.
Narração da viagem de Vasco da Gama, da luta dos deuses,
da História de Portugal em alternâncias,
discurso encaixado, analepses e prolepses.
Mega-poema constituído por quarenta e quatro poemas breves, agrupados em três partes principais (1ª, 2ª, 3ª, sendo a 1ª e a 3ª subdivididas).
De carácter ocultista, a sua natureza é de índole interpretativa, com reduzida narração.
Assunto: os Portugueses e os feitos concretos cumpridos.
O poeta canta a saga lusa na conquista dos mares.
Assunto: a essência da Pátria e a missão que esta deverá cumprir.
Os heróis agem norteados pela Fé de Cristo,
dando a conhecer novos mundos ao mundo.
A missão de Vasco da Gama foi coroada de êxito,
dela derivou o Império Português do Oriente.
Os heróis, numa atitude contemplativa e enigmática, buscam o infinito: a Índia tecida de sonhos.A missão terrena de Portugal foi cumprida por vontade divina; outra, de índole ocultista, aventura espiritual e cultural, está ainda por cumprir, a hegemonia do Quinto Império.
Epopeia de dimensão humanista-renascentista:
acesso ao conhecimento dos segredos da Natureza
pelo Homem.
Poema épico-lírico-simbólico-mítico, projecto de ideal de fraternidade universal: utopia.
Elogio da loucura, do sonho; evasão do real, valorização do imaginário.
Semelhanças
· Poemas sobre Portugal.
· Concepção da História Portuguesa enquanto demanda mística.
· D. Sebastião, ser eleito, enviado por Deus ao mundo, para difundir a Fé de Cristo.
· Os heróis concretizam a vontade divina.
· Conceito abstrato de Pátria.
· Apresentação dos heróis da História de forma fragmentária.
· Exaltação épica da acção humana no domínio dos mares.
· Superação dos limites humanos pelos heróis portugueses.
· Superioridade dos navegadores lusos sobre os nautas da Antiguidade.
· Glória marcada pelo sofrimento e lágrimas.
· Sacrifício voluntário em nome de uma causa patriótica.
· Estrutura rigorosamente arquitetada.
· Evocação do passado (memória) para projectar, idealizar o futuro (apelo, incentivo).
Diferenças
- Os elementos estruturantes das obras (forma e conteúdo) são marcados pela diferença de quatro séculos que separam os autores.
Os Lusíadas Mensagem
Dinamismo: a viagem, a aventura, o perigo. Estatismo: o sonho, o indefinido.
A ação, a inteligência, o concreto,
o conhecimento do Império no apogeu e
na decadência, a possibilidade de ter esperança.
O abstrato, a sensibilidade, a utopia, a falta de razões para ter esperança, o sebastianismo
O poeta dirige-se a D. Sebastião, que era uma
realidade viva, e invectiva o rei a realizar novos
feitos que dêem matéria a uma nova epopeia.
D. Sebastião é uma entidade que vive na memória saudosa do poeta, uma sombra, um mito.
A memória e a esperança situam-se no mesmo plano.
A esperança é utopia, só existe no sonho.
Conceção de heroísmo: concretização de
feitos épicos pelos humanos.
Conceção de heroísmo: de carácter mental, conceptual.
Os heróis são símbolos de um olhar visionário, as figuras são espectros, resultado do trabalho do pensamento.
Amor à Pátria: enaltecimento e imortalização
da História de Portugal e dos heróis portugueses,
através de um poema épico, trabalho árduo e longo.
Amor à Pátria: atitude metafísica, procura incessante do que não existe. Expressão de fé no Quinto Império.
Linguagem épica, estilo grandiloquente.
Linguagem épico-lírica, estilo lapidar.
Epopeia clássica pela forma e pelo conteúdo.
Narração da viagem de Vasco da Gama, da luta dos deuses,
da História de Portugal em alternâncias,
discurso encaixado, analepses e prolepses.
Mega-poema constituído por quarenta e quatro poemas breves, agrupados em três partes principais (1ª, 2ª, 3ª, sendo a 1ª e a 3ª subdivididas).
De carácter ocultista, a sua natureza é de índole interpretativa, com reduzida narração.
Assunto: os Portugueses e os feitos concretos cumpridos.
O poeta canta a saga lusa na conquista dos mares.
Assunto: a essência da Pátria e a missão que esta deverá cumprir.
Os heróis agem norteados pela Fé de Cristo,
dando a conhecer novos mundos ao mundo.
A missão de Vasco da Gama foi coroada de êxito,
dela derivou o Império Português do Oriente.
Os heróis, numa atitude contemplativa e enigmática, buscam o infinito: a Índia tecida de sonhos.A missão terrena de Portugal foi cumprida por vontade divina; outra, de índole ocultista, aventura espiritual e cultural, está ainda por cumprir, a hegemonia do Quinto Império.
Epopeia de dimensão humanista-renascentista:
acesso ao conhecimento dos segredos da Natureza
pelo Homem.
Poema épico-lírico-simbólico-mítico, projecto de ideal de fraternidade universal: utopia.
Elogio da loucura, do sonho; evasão do real, valorização do imaginário.
O Conde D. Henrique
Todo começo é involuntario.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.
Conde D. Henrique, contribuiu para a fundação de Portugal, para a criação da nossa nacionalidade, foi o fundador do Condado Portucalense.
Apesar de o poema possuir este título, pouco está ele relacionado diretamente com a personagem. O texto ultrapassa mesmo a figura de Conde D. Henrique através de afirmações altamente simbólicas.
Na 1ª estrofe, o herói (Conde D. Henrique) atua como agente de Deus, comandado por uma força que o transcende, uma força que o faz agir inconscientemente.
Dá-se portanto início a um percurso espiritual. O que este percurso pretende atingir, é a ideia de que mais importante do que a terra (matéria), é o espírito, os valores sobre os quais ele (herói) vai criar as suas raízes.
Resumidamente, nesta 1ª estrofe o herói imóvel assiste ao desenrolar involuntário de alguma acção.
A espada, símbolo de guerra, de morte. Aqui a espada funciona paradoxalmente. Não é de guerra verdadeira que fala o poeta, é de guerra à ignorância. Poderá ainda ser interpretada como símbolo de fecundação dos campos, a criação de vida.
Nesta 2ª estrofe, o herói desce o olhar na espada e faz aquela interrogação retórica «Que farei eu com esta espada?»:
Conclui-se então o poema com a finalização do acto, a concretização de algo por parte do herói, o nascimento de Portugal.
D. Afonso Henriques
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como benção!
O sujeito poético dirige-se ao rei D. Afonso Henriques, "Pai" (da nacionalidade) - apóstrofe - dizendo-lhe que foi cavaleiro, que lutou pela nacionalidade portuguesa e que "hoje a vigília é nossa", é a nossa vez de prosseguirmos a luta para um destino maior, por isso, o sujeito lírico pede ao rei que nos dê a sua "inteira força", o seu "exemplo inteiro".
Atente-se no vocabulário de dimensão sagrada: “vigília”, “infiéis”, “bênção”.
Os "novos infiéis" são as pessoas que criavam obstáculos ao destino glorioso sonhado para Portugal.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como benção!
O sujeito poético dirige-se ao rei D. Afonso Henriques, "Pai" (da nacionalidade) - apóstrofe - dizendo-lhe que foi cavaleiro, que lutou pela nacionalidade portuguesa e que "hoje a vigília é nossa", é a nossa vez de prosseguirmos a luta para um destino maior, por isso, o sujeito lírico pede ao rei que nos dê a sua "inteira força", o seu "exemplo inteiro".
Atente-se no vocabulário de dimensão sagrada: “vigília”, “infiéis”, “bênção”.
Os "novos infiéis" são as pessoas que criavam obstáculos ao destino glorioso sonhado para Portugal.
Neste poema, o “Eu”, o povo português roga ao seu salvador, ao primeiro Rei de Portugal que ele seja tomado como o exemplo a seguir, que lhes dê a força e a bênção que recebeu de Deus e da sua vontade divina para enfrentarem os mouros. Tal como os mouros foram o obstáculo de D. Afonso Henriques na expansão territorial e na expansão da fé cristã, também para os portugueses, ”os novos infiéis”, serão uma atualização desse mesmo obstáculo.
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