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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
domingo, 8 de janeiro de 2017
POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Revista Orpheu

Revista Orpheu (Orphismo)
Os únicos dois números desta revista, lançados em Março e Junho de 1915, marcaram a introdução do modernismo em Portugal. Tratava-se de uma revista onde Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Fernando Pessoa, entre outros intelectuais de menor vulto, subordinados às novas formas e aos novos temas, publicaram os seus primeiros poemas de intervenção na contestação da velha ordem literária; o primeiro número provocou o escândalo e a troça dos críticos, conforme era desejo dos autores; o segundo número, que já incluiu também pinturas futuristas de Santa-Rita Pintor, suscitou as mesmas reações. Perante o insucesso financeiro, a revista teve de fechar portas, pois quem custeava as publicações era o pai de Mário de Sá Carneiro e este cometeu suicídio em 1916. No entanto, não se desfez o movimento organizado em torno da publicação. Pelo contrário, reforçou-se com a adesão de novos criadores e passou a desenvolver intensa actividade na denúncia inconformista da crise de consciência intelectual disfarçada pela mediocridade académica e provinciana da produção literária instalada na cultura portuguesa desde o fim da geração de 70, de que Júlio Dantas (alvo do Manifesto Anti-Dantas, de Almada) constituía um bom exemplo.quarta-feira, 1 de junho de 2016
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Tempo em Felizmente Há Luar!
TEMPO
a) tempo histórico: século XIX
b) tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista
c) tempo da representação: 1h30m/2h
d) tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias
e) tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes para o desenrolar da ação,
As indicações temporais fornecidas pelo texto permitem-nos verificar que a intriga se desenrola de forma linear e progressiva, embora não sejam muito precisas as indicações sobre a duração da ação.
Historicamente, sabe-se que o General Gomes Freire de Andrade foi preso a 25 de maio de 1817 e executado a 18 de outubro de 1817. assim, a ação decorre entre estes dois marcos temporais. Deste modo, o ato II pressupõe uma duração de 150 dias.
a) tempo histórico: século XIX
b) tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista
c) tempo da representação: 1h30m/2h
d) tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias
e) tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes para o desenrolar da ação,
As indicações temporais fornecidas pelo texto permitem-nos verificar que a intriga se desenrola de forma linear e progressiva, embora não sejam muito precisas as indicações sobre a duração da ação.
Historicamente, sabe-se que o General Gomes Freire de Andrade foi preso a 25 de maio de 1817 e executado a 18 de outubro de 1817. assim, a ação decorre entre estes dois marcos temporais. Deste modo, o ato II pressupõe uma duração de 150 dias.
Felizmente Há Luar! - Mecanismos de Distanciação
- Brecht considera que o teatro deve tomar como ponto de partida a realidade envolvente, denunciando as injustiças sociais e procurando criar uma consciência política no espectador que o leve a intervir socialmente.
- Por isso faz apelo constante ao espírito crítico e de análise do espectador, levando-o a uma maior consciencialização que passa pela sua capacidade de demonstrar racionalmente as técnicas de fabricação da ilusão que a estrutura dramática implica.
- .A ruptura com a conceção tradicional da essência do teatro é evidente: o drama já não se destina criar o terror e a piedade, isto é, já, não é a função catártica, purificadora, realizada através das emoções, que está em causa, pela identificação do espectador com o herói da peça, mas a capacidade crítica e analítica de quem observa. Brecht pretendia substituir sentir por pensar.
Distanciação: mecanismos
Para conseguir o objetivo de formar um espectador novo, crítico e interveniente na sociedade, que não se limite a identificar-se com situações ou personagens, mas que tome partido, Brecht utiliza um conjunto de técnicas que criam o que ele designa por efeito de distanciação.
Distanciar é fazer com que o espectador não se identifique com as situações que visualiza, se sinta um estranho, e isso lhe permita, através da consciência crítica, perceber que pode ser agente de intervenção e mudança.
A distanciação é assim o cerne de um teatro didáctico. Ela tem lugar a vários níveis:
fábula;
personagens;
cenário;
gestus;
iluminação;
som.
Fábula- a peça deve abordar um tema histórico que funcione como metáfora. A adaptação de um tema metafórico é um dos processos usados para provocar a distanciação.
A realidade representada funciona como metáfora da realidade política em Portugal ao tempo da escrita da peça.
A escolha de um exemplo real da nossa História, serve de exemplo, para reflexão, e, simultaneamente, contribui para a transformação da realidade contestada.
Personagens- no seu processo de atuar em palco, devem distanciar-se do que representam, permitindo ao espectador perceber que estão ao serviço de uma ideia, de uma denúncia. Elas procedem de modo a não contribuir para que o espectador as confunda com o que representam: a personagem deve ser entendida como porta-voz de uma consciência, cabendo-lhe fazer com que o público não se identifique consigo, antes compreenda que ela mais não é que uma persona, uma máscara, um processo de denúncia.
A trilogia do poder, Principal Sousa, D. Miguel e Beresford, é um conjunto de personagens que atua de modo a que o espectador consiga desmontar as engrenagens de interligação entre os poderes religioso, político e militar.
Cenário- muito pouco caracterizado, apenas são referenciados alguns elementos que nos remetem para determinados espaços sociais.
As três cadeiras "pesadas e ricas com aparência de trono" ilustram as três faces do poder. O "caixote" no qual se senta uma "velha" caracteriza os oprimidos.
Gestus- Promove a distanciação na medida em que abarca um conjunto de atitudes que aponta para a relação do indivíduo com o mundo que o rodeia, podendo servir para indicar um posicionamento de classe.
O 1.º Popular ora macaqueia os modos de um fidalgo, ora "desfaz o gesto com violência" para denunciar que ali ninguém tem relógio, compreendendo-se que assim é porque as condições socio-económicas não o permitem.
Iluminação- contribui para o efeito de distanciação através do contraste luz/sombra, pretendendo, deste modo, que o espectador compreenda os diferentes momentos cénicos; revela as personagens em cena sublinhando-lhes as ações e as palavras; distingue espaços; destaca elementos cénicos; evidencia a carga semântica e metafórica da luz e da sombra.
"Surge, a meio do palco, intensamente iluminada (...) Matilde de Meio" (p. 83).
Ausência da luz
"Apagam-se todas as luzes. As personagens ficam na penumbra agitando os braços e erguendo bandeiras no ar" (p. 74).
Som- A música, o som de fundo, o ruído dos tambores contribuem para a distanciação porque apresentam uma função intimidatória: medo; repressão.
"Começa a ouvir-se, ao longe, o ruído dos tambores" (p. 17).
"Ouve-se ao longe uma fanfarra que vai num crescendo de intensidade até cair o pano" (p. 140).
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